26 novembro 2012

A paz que queima


Rio de Janeiro, 26 de novembro de 2012 às 4 da tarde 

Como uma empada de palmito e vem-me a cabeça todos aqueles dias que estivemos juntos. Penso que tudo poderia ter sido mais: mais intenso, verdadeiro, mais sem medo, talvez. Não que tenha sido ruim, longe disso. Foram realmente momentos maravilhosos. Mas perdemos tempo demais tentando teorizar os sentimentos. Era carência? Era amor? Era o vazio contemporâneo? Não importava saber. Era AQUILO e AQUILO bastava. E essa é minha única queixa para você, para nós. Enquanto tudo se desenrolava em trilhos suaves insistíamos em teorizar. E o que tinha potencial para ser ainda mais, virou menos, menor, insignificante. Ignoramos AQUILO e todo potencial DAQUILO. Quando você e eu descobrimos nosso melhor lado ficamos nos fazendo perguntas inúteis. E a paz, aquela paz, a tal paz que falávamos tanto enquanto comíamos nessa mesma mesa, essa mesma empada de palmito, com pimenta e azeite, estava lá o tempo todo. E aqui você sabe que não falo de uma paz qualquer. Não buscávamos a paz de um domingo tedioso ou de uma cidade vazia. Não buscávamos a paz pintada de branco. Era a paz laranja que nos encantava, a paz daquela poesia suja com os termos mais absurdos. Uma paz humana e não divina. Não a paz de se compartilhar um guarda-chuva em dia de temporal, e sim a paz de nos molharmos todo, correndo entre os carros, gritando e nos beijando nas marquises, sem nos importar se você estava de blusa branca e sem sutiã e que seus mamilos, mesmo claros, ficariam expostos. Sem nos importa que meu sapato novo ficaria cheio de lama e com cheiro ruim da água empoçada. Iríamos para casa e tomaríamos juntos banho quente e treparíamos cantando palavrões. E gozaríamos caindo na gargalhada. Nossa paz não era a paz do Papa, das igrejas, dos remédios tarja-preta. Era a paz de um pulo duplo de asa-delta à noite, contornando os Dois Irmãos, o Hotel Marina, vendo o Arpoador de cima e toda imensidão desconcertante do mar perdida na negritude da noite. Nossa paz era vermelha feito fogo e nos queimava o peito de felicidade... 

vejo alguns pombos sujos nos tetos dos sobrados 
penso em ligar para você, 
mas não o faço.
Comentários
0 Comentários

Nenhum comentário:

Postar um comentário