29 abril 2012

Quem sabe no futuro


E então ele(a) diz: “Não da pra mim mais, vamos terminar. Sou muito novo(a) para me enfiar de cabeça numa relação, preciso viver outras coisas, desbravar o mundo... Acho que não te amo mais”, e saiu pela porta.

Seis meses depois tinha experimentado cinco bocas diferentes e nenhuma dessas bocas tivera grande importância na sua vida. Lembrava muito pouco das caracteristicas daquelas pessoas, da cor dos olhos, do gosto da língua e do toque. Mas continuava achando que precisava “viver outras coisas”, projetando para o futuro a felicidade do presente. Vivia da vontade criada de viver algo de especial e fugia como o Diabo da cruz do sólido e do palpável. Tudo se desmanchava como um monte de areia nas mãos que vai derramando entre os dedos. E como ele(a), toda uma geração caminha sem saber usufruir aquilo que é oferecido. O que está ao alcance já não interessa mais. Olhamos para um horizonte tão longínquo que não sabemos se o que vemos lá é real ou é miragem. Na ânsia de se viver coisas novas, novas experiências, não se vive nada. O medo de acabar não experimentando algo grandioso na vida cega os olhos para a grandiosidade da experiência diária de se compartilhar os dias. O tempo passa. As possibilidades de hoje não serão as mesmas amanhã. Sequer sabemos se existirá amanhã. Hoje nós dispensamos aquele que amamos e nos jogamos imponente e certo rumo a uma vida criada apenas nos nossos sonhos, e que muito provavelmente continuará apenas ali, no plano do etéreo, do sagrado. Não viajaremos o mundo todo numa aventura solitária e sem rumo. Não conheceremos as pessoas mais interessantes das nossas vidas por estarmos sozinhos(a). Pessoas interessantes, especiais e raras, e exatamente por serem interessantes, especiais e raras, não se encontra todo dia. E talvez, tudo aquilo que pedimos nas orações, nos sonhos e desejos, aquele alguém com todas as caracteristicas que admiramos e achamos necessárias, já esteja ao nosso lado, mas queremos mais, queremos alguém ainda mais interessante, ainda mais especial e ainda mais raro. E a felicidade é deixada para depois, sempre projetada para o futuro, e como o nosso personagem, antes de sair de cena, antes de fechar a porta dizemos: “Olha, só acho que o momento não é agora, mas quem sabe no futuro...”.

Comentários
3 Comentários

3 comentários:

  1. Já ouvi isso muito. Já falei isso mais ainda.

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  2. Já fui dispensada com essas palavras. Infelizmente essa busca por algo melhor que o melhor que a pessoa já possui é mais comum do que imaginamos.

    Ótima semana!!
    Camila Gomes
    http://camillacris.blogspot.com.br/

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  3. Ainda continua com a mesma forma de nos prender a leitura. Lindo!
    Quanto tempo Zuza, me chama pra conversar querido! Beijo

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