07 fevereiro 2012

Sanduíche caseiro

Permita-se à decadência, ao fracasso, à miséria, as dores mundanas, humanas e cintilantes. Mata-se quantas vezes forem necessárias e renasça sempre com um Q de esperança de que dessa vez será melhor. E depois morra de novo, quando já sem força, sem fé, quando a dor já não couber, e quando a alma estiver anestesiada e opaca enterre as máculas em um buraco bem fundo, em um caixão blindado. Ou queime, creme, que vire pó solto no ar, transitando no universo, nos cantos dos prédios escuros do início século passado, nas ruas mal iluminadas que já sentiram o pisar firme, compassado e descompassado dos homens de ontem, de hoje e de sempre... E quando alguém sorrir para você do outro lado da rua, e quando uma criança quiser segurar suas mãos, ou um mendigo chegar com um jarro de flores e mãos sujas, retribua, com um sorriso, um acenos ou com brilho nos olhos. E descubra então que o valor das coisas está em um outro lugar. Que um dia tempestuoso, que as lágrimas que brotam de uma perda, que furacões, raios e vulcões com seus poderes de destruição carregam também toda a beleza do mundo, como o vento, o fogo, os mitos religiosos. E a verdade, não a absoluta, mas a singela verdade se revelará perante os olhos densos do camarada que chora da varanda daquele apartamento quarto e sala. E nesse momento entenderá que solidão nenhuma é boa companheira por tempo demais. E ao olhar a garota, também na sacada do apartamento quarto e sala em frente ao seu, perceberá que compartilham, sem perceber, momentos preciosos de uma vida inteira, enquanto os pensamentos rodopiam entre uma mordida e outra de um pedaço de sanduíche caseiro...

Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Um dos textos mais emocionantes que eu ja li zz!Lindo, maravilhoso....parabéns!

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  2. "que furacões, raios e vulcões com seus poderes de destruição carregam também toda a beleza do mundo"
    Alguém vê algo de belo nos furacões...

    Suzi

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  3. De fato a solidão não é um boa companheira a longo prazo.
    Tem horas que desejamos brilhar em conjunto.
    Saudades daqui.
    Beijos

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  4. Mais do que ler você, sempre foi sentir o que a leveza da poesia pode nos levar. A imaginar, mesmo tão singelo, "tudo isso". Zuza, seus textos ainda são de arrepiar... Um beijo querido!

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