20 dezembro 2011

Correria

Caminho pelo Largo da Carioca enquanto rostos desconhecidos cruzam rápido meu caminho. Compras de Natal. Penso no amor, no amor que sinto, no amor que senti, no amor dos outros. No amor de Roberto pela Camila. No amor de Gustavo por Antônia. Nas flores que Eduardo enviou para Jéssica. No amor de Elisabete por Luana. Na carta que Samuel escreveu para Washington. Nos olhos brilhantes de Luísa olhando o novo poster do Luan Santana. Da Marlene apaixonada pelo Daniel e tentando conquistá-lo com uma torta de maracujá. Do Robson fazendo música para Caroline. Do Neíldo, um morador de rua, carregando nas mãos sua princesa, um jarrinho pequeno de flor, única lembrança que carrega dos filhos que viu pela última vez andando com a mãe ali pela Candelária. Neildo é alcoólatra. E só é alcoólatra porque foi a única forma que achou de lidar com as dores contemporâneas. Dores que ultrapassam o sentir físico e doem na alma. Dor de um luto que nunca pode ser elaborado. Neildo é alcoólatra por não ter acesso a um psiquiatra e suas tarjas coloridas... Caminho pelo Largo da Carioca e penso nos amores que já tive. Na Natália, na Gabriela, Tarcila, na Munique, Catarina I, Catarina II, Taís, Lívia, Renata, Tatiana, Paula, na moça do ponto de ônibus, da padaria, na morena da Maracangalha, na bailarina do espetáculo de dança de único final de semana que ficou marcado feito tatuagem. Nos amores de longe, nos amores de perto, naqueles que nem viraram amores ainda e que nem sei se virarão. E penso que o homem conseguiu subverter o que não precisava ser subvertido, as duas maiores forças do universo, a que chamamos de Deus e a que chamamos de Amor. Fizemos de Deus nossa imagem e semelhança a ponto de transformá-lo em uma entidade egoísta, vaidosa, mesquinha, vingativa e autoritária. Transformamos Deus naquilo que existe de pior no comunismo e no capitalismo. E do amor fizemos produto com prazo de validade, comprado em qualquer prateleira de qualquer boate da moda ou não, basta pedir com uma dose de Whisky com Red Bull... O amor era um passarinho bonito que batia as asas com leveza e graça. Hoje é um pássaro acorrentado que nem cantar sabe mais... Vou andando pelas ruas, pelo centro de uma metrópole que tanto gosto. Respiro esse ar abafado, essa correria ordinária, e penso que ainda não evoluímos nada...

www.zuzazapata.com.br
Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. e eu ando em uma correria só , pensando seriamente em deixar a vida dos outros por aí como eles andam deixando a minha! amei zuza!

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  2. Suas palavras são tocantes, mas fico triste com a desesperança (pelo menos vi assim) nelas... pra mim o amor é mais que isso e a vida segue cada vez mais alto, moço! Mesmo assim, apesar da diferença de pensamentos (acho) o texto é excelente... bom para pensar e fazer mudar! Vlw por ele.

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